PARA EXPLICAR O ÓDIO PERGUNTE AOS MORTOS

PARA EXPLICAR O ÓDIO PERGUNTE AOS MORTOS

Alemanha, décadas de 1930-1940, durante anos, antes de alcançar o poder, Hitler, o Partido Nazista Alemão e a imprensa daquele país fomentaram de tal modo o ódio contra os judeus que agressões verbais logo se transformaram em agressões físicas, depois vieram os guetos e por fim os campos de concentração e o extermínio em massa. A maior parte da população alemã, alienada e entorpecida pela propaganda nazista antissemita, participou ativamente do holocausto judeu, ora denunciando seus antigos amigos e vizinhos judeus aos soldados da SS, ora saqueando, torturando e assassinando esses mesmos amigos e vizinhos judeus, ciganos, negros, homossexuais, comunistas e qualquer outro rótulo que o eficiente departamento de propaganda alemão pudesse incluir no vasto conjunto dos inimigos da pátria, do partido, da moral, dos bons costumes e do “homem de bem” nazista.

Ruanda, centro-oeste da África, em apenas 100 dias no ano de 1994, quase um milhão de pessoas foram assassinadas à bala ou à golpes de facão. Na essência do conflito a luta entre duas etnias rivais, Tutsis contra Hutus. Entretanto, por gerações esses grupos conviveram e se relacionaram em paz e cordialidade, então o que houve para que o ódio sobrepujasse a harmoniosa convivência? Foi preciso não mais do que alguns anos para que a propaganda de ódio patrocinada pela Inglaterra em conluio com lideranças locais rompessem com a paz e produzissem o cenário ideal para um dos maiores genocídios do século XX. Mais do que um genocídio étnico, um massacre ideológico, pois se mata não apenas pelo que se é, mas pelo que se pensa ou supostamente se pensa. Na Ruanda de 1994, como na Alemanha nazista ou noutra infinidade de exemplos mundo afora, pensar ou supostamente pensar em algo, foi conduta passível da pena capital. A este fenômeno podemos chamar de “violência ideológica”.

A violência ideológica não é fruto do acaso, da geração espontânea que emerge subitamente numa sociedade outrora pacífica e ordeira. Não muito antes, é preciso plantar a vil semente e adubar a terra com toneladas de propaganda de ódio, em sua maior parte, promovida pela grande mídia em associação a poderosos grupos político-econômicos. Quase sempre, a propaganda de ódio se inicia de forma sutil, imperceptível até para as mentes mais desconfiadas, então cresce, se expande e se torna cada vez mais vigorosa à medida que a população se contamina e, por sua vez, retransmite o ódio de boca em boca, de post em post. Em dado momento, os agentes iniciais de difusão do ódio podem sair de cena ou, quem sabe, vestir-se em trapos de santo para esconder sua vilania. Como a gripe, o ódio é contagiante. Como a gripe, o vírus prefere ser discreto.

Brasil, 2016, enquanto escrevo este texto, em várias cidades do país, há pessoas sendo agredidas nas ruas por estarem vestidas de vermelho ou por não gritarem “fora Lula” no metrô. Antes disso, as ofensas verbais nas redes sociais e nas conversas de bar já revelavam o ódio crescente entre as duas castas políticas que surgiram ou foram reveladas nesta terra: a dos tucanos, eleitores de Aécio, conservadores, direitistas, coxinhas ou qualquer outro adjetivo ou pejorativo que se convencionou tacitamente a rotular os inimigos do segundo grupo; neste, tremula a bandeira dos petistas, petralhas, comunistas, feministas, gayzistas, defensores dos “direitos dos manos”, esquerdistas, esquerdopatas e qualquer outra alcunha que lhes sirva aos olhos do primeiro. Não existe 3ª via, muito menos neutralidade permitida nesta guerra pelos corações e cabeças tupiniquins. A propaganda de ódio não é conivente com a moderação ou diversidade de pensamento. A propaganda de ódio tem a finalidade de produzir e difundir o ódio, independente das suas consequências. E quais seriam essas consequências? Pergunte aos mortos.

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