O último homem no dia que o sol morreu

“A superfície seca e crestada, aquecida pelo sol do meio-dia, deixava o ar abafado, quente como em um forno. Tínhamos a impressão de que até os arbustos cheiravam mal”, escrevia, em 1835, o jovem naturalista inglês, Charles Darwin, durante sua expedição às ilhas Galápagos, no oceano Pacífico. Darwin, por simples acaso, acompanhava Raul que, também por acaso, era o último ser humano vivo no ano de 2.301 depois de Cristo.

 

Além do clássico livro, também acompanhavam Raul uma Bíblia, um cantil com água salobra, um facão de fio gasto, um pesado cobertor, alguns gravetos secos, um acendedor automático, uma lanterna de LED, algumas frutas e brotos e um CD antigo que havia encontrado nos escombros de um museu décadas atrás. Infelizmente, assim como os museus e os CDs, os aparelhos de som também estavam extintos há gerações.  Após mais uma persistente crise de tosse, Raul pôs a mão sobre a boca e não se surpreendeu com as manchas de sangue misturadas ao catarro e à poeira. Continuou andando vagarosamente pelo curso seco de um rio morto.

 

Bem longe dali, os Olhos de Deus finalmente avistaram aquele andarilho velho e cansado demais para os seus cinquenta e quatro anos, vagando aparentemente sem destino pelo deserto. Por mais de quarenta anos os espelhos daquele satélite varreram vigilantes à superfície do planeta em busca de remanescentes vivos do Homo Sapiens, mas nada encontraram além de ruínas de sua civilização e indigentes esqueletos pacientemente transformando-se em rocha. Do alto, o satélite emitiu o esperado sinal que atravessou a atmosfera terrestre até ser captado e decodificado por um sofisticado computador, localizado milhares de quilômetros distantes do solitário andarilho.

 

O sol fustigava a pele já maltratada pelo tempo e fazia crescer manchas e erupções nas mãos e braços displicentemente expostos pelo curto pano da camisa. Um chapéu de longas abas oferecia uma singela sombra ao rosto, já os óculos especiais protegiam os olhos da luz intensa que irradiava do Astro Rei e refletia de volta ao cosmos através da areia escaldante. A água, escassa, sumia tão rápido do cantil quanto dos poros daquele andarilho. Vez ou outra, uma sarcástica ilusão de óptica fazia brotar um oásis no horizonte, só para ver a frustração do homem ao perceber que não passava de mais uma piada de mau gosto do seu próprio cérebro. Por horas, ele caminhou pelo veio árido daquele rio morto, como algum explorador europeu deveria ter feito em canoas e remos mil anos antes. Quando a noite finalmente o alcançou, o último homem se permitiu desabar sobre a areia ainda morna e contemplar o véu de estrelas no céu.

 

Lá, no céu, meteoritos cruzavam o firmamento deixando um rastro luminoso em seu caminho rumo à inexistência. O último homem não disfarçava sua inveja daqueles efêmeros pedaços de rocha e gelo. Outros objetos se moviam na atmosfera, mas não passavam de lixo espacial abandonado por civilizações antigas. Uma crise de tosse fez Raul desviar os olhos dos seus devaneios. Sentou-se na areia e se assustou com os vultos que se aproximavam sorrateiramente pela escuridão. Ele então abriu rapidamente sua mochila, tateou-a até encontrar sua lanterna e tão logo se fez a luz uma pequena matilha de cães fugiu assustada pelo deserto. A maioria dos animais de estimação se extinguiu nos primeiros dez ou vinte anos sem os humanos. Eles não conseguiram se adaptar à natureza selvagem, da mesma forma que a natureza não conseguiu se adaptar aos homens. Mas alguns cães domésticos se adaptaram e sobreviveram, se tornando hoje tão selvagens quanto eram seus primos canídeos antes de serem extintos por caçadores e fazendeiros. Raul ouviu os cães uivando ao longe, como se fossem lobos. Na verdade, em seus genes eles nunca deixaram de ser.

 

Por que os cães não haviam lhe atacado? Perguntava-se o andarilho, acostumado a fugir de grandes e pequenos animais. Ao menos daqueles que não foram extintos e voltaram a proliferar em certas regiões do planeta. O mundo havia se tornado um vasto deserto, marrom e estéril, mas em algumas regiões, a vida teimava em se refazer de verde e azul. Densas florestas ressurgiam e traziam consigo animais de várias espécies. Os oceanos se enchiam novamente de criaturas aquáticas e se houvesse alguém ali para ver, diriam que a Grande Extinção que havia dizimado 75% de todas as espécies animais e vegetais no planeta havia definitivamente ficado no passado. Desde o surgimento da primeira criatura viva, há 3,5 bilhões de anos, a vida na Terra já havia superado cinco grandes extinções em massa. Para o andarilho, também haveria de superar a sexta.

 

Com os últimos lobos selvagens extintos há 200 anos, o andarilho temia virar presa dos descendentes de vira-latas que nunca haviam visto ou devorado um humano antes. Talvez tenha sido o medo do desconhecido a fazer aqueles cães preferirem caçar suas habituais ratazanas gigantes à aquele raro primata bípede com encéfalo altamente desenvolvido. Sorte a do primata. Raul resolveu fazer uma fogueira com seus gravetos para espantar os cães, o frio e quem sabe a febre. Franziu a testa ao perceber que eram seus últimos gravetos, mas sorriu ao lembrar de que logo estaria morto de qualquer maneira. Era necessário algum papel para acender o fogo, então retirou da mochila seu amigo Darwin e, com cuidado, deixou-o descansar ao seu lado. Em seguida retirou do fundo da bolsa o velho livro de capa preta, pensou em queimar o salmo 23 naquela noite, mas apenas uma única folha restava intacta no miolo daquele livro. Contentou-se em incinerar o salmo 91: “mil cairão ao teu lado, dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido”. Lembrou-se dos filhos e da esposa, e dos bilhões de filhos e esposas antes dos seus, e então rasgou a última página do livro sagrado que rapidamente virou fogo, cinzas e fumaça. O andarilho enrolou-se no pesado cobertor e dormiu ao lado da pequena fogueira de gravetos e escrituras.

 

O dia amanheceu com febre alta, muita tosse e dor de cabeça. Mais um dia típico, afinal. Os últimos remédios que possuía foram consumidos três meses atrás e não foram capazes de salvar sua mulher da peste implacável. Os antibióticos haviam perdido a corrida da evolução para os micróbios. “Malditos micróbios!” – Praguejava o andarilho viúvo. Bilhões de outros viúvos e viúvas também amaldiçoaram seu minúsculo carrasco pouco antes de também se renderem àquelas pequenas, simples e terrivelmente mortais criaturas. Em menos de uma década, um vírus com alto potencial de contaminação, elevado grau de mortalidade e esperto o suficiente para se manter imperceptível no corpo do hospedeiro por até cinco meses, espalhou-se silenciosamente pelo globo até ser capaz de dizimar 80% da população humana. A crise biológica também dilacerou Estados e economias mundo afora. Os países, suas fronteiras e instituições desfizeram-se no caos. Apenas os “organismos” mais poderosos da sociedade sobreviveram. Ao menos, por um tempo.

 

Raul empurrou garganta abaixo com ajuda da água salobra as últimas frutas e brotos que havia encontrado pelo caminho. A procissão de um homem só pelo cadáver sinuoso daquele rio precisava continuar. E o andarilho continuou. Por quilômetros de pálidas paisagens desérticas, ele caminhou decididamente para um destino improvável. Quando já tinha o sol pelas costas, avistou no horizonte uma curiosa miragem de concreto cinza. Prédios e edifícios destruídos sendo devorados lentamente pelo tempo e pela areia. Enquanto se aproximava daquela que deveria ser uma das primeiras cidades a desaparecer dos registros cartográficos, o andarilho percebeu notáveis mudanças na paisagem. Parcialmente escondidos na areia, ferragens e metais contorcidos lembravam que, por um tempo, houve carros e veículos automotores. E por um tempo, foi bom. Mas houve um tempo em que alimentar os carros, as máquinas e o fútil era mais importante que alimentar as pessoas e a fome dos primeiros acabou consumindo a sobrevivência dos últimos. “Malditas máquinas!” – Praguejava o andarilho que só as havia conhecido por velhas revistas e livros empoeirados.

 

Quando o andarilho e sua esposa ainda habitavam uma pequena vila no meio da floresta com outros cem ou cento e cinquenta humanos, houve um tempo em que se poderia dar ao luxo de ter uma vida razoavelmente normal para sobreviventes de um holocausto global, quem sabe até ensinar aos seus habitantes a ler e escrever. Eram os mais antigos que se esforçavam para ensinar os mais jovens aquilo que haviam aprendido sobre o mundo de antes e o de agora. Não restou à última colônia de humanos nenhum computador ou máquina sofisticada, ambos perdidos ao longo de sua desesperada diáspora pela sobrevivência. Salvo alguns livros e artefatos de baixa tecnologia, vivíamos pouco diferentes dos nossos mais remotos ancestrais. Mas vivíamos. Até que um dia, um maldito dia, um forasteiro vindo de terras esquecidas encontrou por acaso aquela colônia. Ele também fugia de sua própria colônia de humanos, completamente dizimada pela peste. Antes que também se juntasse aos seus sob o manto da morte, sobrou-lhe tempo para indicar o caminho até sua antiga colônia que, segundo ele, era o lugar mais belo que conhecera em toda sua curta existência. Infelizmente, também lhe sobrou tempo para contaminar de micróbios à colônia recém-descoberta. Raul e sua esposa fugiram, imaginando que as piras que incendiavam os corpos dos seus conterrâneos pudessem satisfazer o apetite insaciável do vírus. Nem mesmo os filhos do casal, já homens e mulheres feitos, foram poupados da gripe e do fogo.

 

Cinco meses haviam se passado desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso pelos micróbios, até que o Criador resolveu exterminar a última esperança de Raul. Primeiro veio à febre, a dor de cabeça e o cansaço excessivo até mesmo para uma mulher madura em seus quarenta e poucos anos. Quando sua esposa começou a expelir sangue dos pulmões, a morte logo veio buscá-la, tomando-lhe à força dos braços do marido. Este, por sua vez, sentia-se culpado por não ter conseguido chorar ao enterrar a esposa. Recriminava-se por ter usado todas as suas lágrimas enquanto organizava os fechos de lenha que queimariam seus filhos e netos. Como penitência pela lágrima não derramada, Raul iniciou uma longa, solitária e derradeira marcha rumo às terras esquecidas de onde viera o forasteiro e seus micróbios matadores de gente.

 

Era noite quando o andarilho alcançou as ruinas da velha cidade. Estava exausto pela caminhada e pela doença, mas encontrou forças para subir até o último andar de um enorme edifício. A areia já havia engolido até o segundo piso daquela construção decadente, de modo que Raul adentrou por um buraco na parede e subiu pelas escadas repletas de escombros, areia e objetos quebrados até o décimo primeiro andar. No caminho, iluminava com sua lanterna vastos corredores sombrios e salões fantasmagóricos. No 8º andar, avistou um pequeno armário de metal enferrujado e sobre ele uma pilha de papéis parcialmente devorados pelos ponteiros do tempo. Talvez fosse o suficiente para fazer uma fogueira. Dirigiu-se até o armário com passos lentos e olhos desconfiados, cães selvagens e ratazanas gigantes não seriam as únicas ameaças para o último ser humano na Terra. As plantas e animais que sobreviveram a Grande Extinção pareciam, de certo modo, terem desenvolvido um instinto natural ora de medo, ora de violência contra os humanos. A natureza tinha seus motivos. Suspeitando que o armário pudesse servir de abrigo para alguma criatura, Raul sacou seu facão da bainha e o empunhou defensivamente enquanto se aproximava do móvel enferrujado… E nada. Não havia nada se escondendo no armário. Nenhuma ameaça. Ao invés de se sentir aliviado, o andarilho se sentiu ainda mais solitário. Frustrado, pegou os papéis sobre o móvel e tornou a subir a longa escadaria que conduzia ao alto do edifício.

 

A fraca luz da lanterna iluminava o acesso ao 11º andar. Mas subitamente a visão ficou turva, a respiração ofegante, as pernas negaram o comando do cérebro para manter o corpo em movimento e o facão que o acompanhava desde o 8º andar despencou escadaria abaixo, liberando as mãos trêmulas para se apoiar na parede de concreto. “Respire!” – Ordenou a si mesmo o andarilho moribundo. Uma queda ali anteciparia o trabalho dos micróbios em frações de segundo. Mas o homem não permitiu que a gravidade e os degraus de cimento abreviassem sua existência, apegou-se à parede como quem se apega ao último suspiro de vida e, teimoso, permaneceu vivo até que a doença fosse obrigada a declarar uma trégua. Pouco a pouco o oxigênio voltou a encher seus pulmões e as pernas finalmente o levaram até o enorme saguão escuro e vazio do último andar. Parte da parede estava destruída, deixando o horizonte noturno exposto como uma varanda. O andarilho apoiou-se numa viga de concreto e deixou as costas escorregarem lentamente até o chão. Sentou-se de frente para o horizonte, ainda que não mais do que meia dúzia de estrelas rompessem com o breu daquele hemisfério.

 

Pensou em fazer uma fogueira, porém, lembrou-se irritado de que não possuía mais gravetos. Amassou os papéis em sua mão e os guardou temporariamente no bolso da calça. Então, apontou a lanterna para os cantos do salão na esperança de encontrar algo que pudesse fazer queimar e enxergou, intrigado, estranhos buracos que atravessavam as grossas paredes. Não demorou muito para identificar as marcas de tiros distribuídas por todo o salão. Próximo a alguns tijolos e ferragens retorcidas, jazia um corpo inerte. Raul se espantou! Há semanas não encontrava ossadas humanas. Levantou-se rapidamente e ao se aproximar do defunto percebera que não se tratava de um humano, mas de um robô humanoide. Por muito tempo robôs foram largamente utilizados pelos humanos. Eles trabalhavam em suas casas como domésticas e nas fábricas como operários. Ainda que sem saber, foram responsáveis por uma gigantesca crise no mercado de trabalho. Robôs foram desenvolvidos para fazer nosso trabalho de forma mais eficiente e mais barata que os humanos e, pela lógica do sistema econômico mundial, acabaram substituindo a mão de obra humana e criando uma legião de desempregados miseráveis. Para piorar, quando a epidemia já havia dizimado bilhões de pessoas e desintegrado povos e nações, as grandes corporações e instituições financeiras travaram guerras entre si para competir pelas últimas glebas onde o vírus não havia alcançado e também pelas últimas reservas de recursos naturais, especialmente, pelas derradeiras nascentes de água doce. À medida que os últimos mercenários famélicos iam tombando no campo de batalha, os humanos foram sendo substituídos por robôs na nobre missão de eliminar mais humanos. Ao fim de um longo e sangrento ciclo de “guerras S/A”, as corporações beligerantes também foram eliminadas. Na verdade, se eliminaram.

 

O corpo metálico que Raul encontrou no salão era de um robô militar, modelo Nêmesis AI-64, fabricado pela extinta Microsoft. Cada unidade seria capaz de exterminar quase tantos humanos quanto os micróbios. Mas nem sempre as máquinas foram programadas para matar. Os mais sofisticados robôs foram desenvolvidos por universidades e institutos de preservação ambiental para encontrar, mapear e resgatar espécies em extinção. Os cientistas usavam máquinas avançadas para despoluir os mares e até para reflorestar áreas degradadas. Não havia limites para conter o avanço tecnológico e os cientistas viam nos robôs uma esperança para o planeta. As máquinas eram mais confiáveis que os humanos. Mas vieram as crises econômicas e políticas, a escassez de recursos, o desemprego, a fome, o vírus e, por fim, as guerras. A esperança, faminta, morreu de gripe e sem balas no revólver. O andarilho ficou por um tempo admirando a engenhosidade humana e imaginando como seria o mundo se tivéssemos utilizado nossa inteligência de maneira diferente. “Como estaríamos? Onde estaríamos?” Então se lembrou de sua condição e parou de pensar na 1ª pessoa do plural.  De volta à viga de concreto, apagou a lanterna e dormiu sem fogueira.

 

O sol invadiu o salão do 11º andar sem pedir licença. O andarilho abriu vagarosamente os olhos pesados para o dia que nascia. Sentia dores atrozes em todos os músculos e articulações do corpo. Também não tardou a perceber que passara toda a noite deitado sobre uma caudalosa poça de suor. Todos os sintomas somados ao gosto ferroso de sangue em sua boca fazia o andarilho pressentir que a morte não subiria pelas escadas, mas viria de elevador.  Mesmo assim ele se levantou só para tornar a se sentar assombrado pela magnifica visão do oceano à sua frente. Um vasto azul interminável de águas calmas, amigáveis. Nem de longe lembrariam a aridez antipática do deserto. Raul abandonou suas tralhas e badulaques, queria alcançar o mar antes que a morte o alcançasse. Uma última provocação de um condenado no corredor da morte. Levantou-se num átimo e como um raio se dirigiu até as intermináveis escadas que o conduziriam prédio abaixo. Mas logo nos primeiros passos hesitou, não poderia abandonar seu leal companheiro de jornada. Deu meia volta, revirou sua mochila e em seguida tornou a caminhar apressadamente rumo ao oceano.

 

A mágica visão do mar havia enchido os olhos e pulmões do andarilho com uma misteriosa força motivadora. O homem que nunca havia saído das entranhas secretas de uma longínqua floresta, desejava o Atlântico como os micróbios desejavam os humanos. Ele desceu tão rápido os degraus que a morte vasculhava sua velha mochila abandonada no 11º andar enquanto o andarilho já saltava para fora do prédio pelo mesmo buraco por onde havia entrado. Mais areia era o que lhe aguardava entre o edifício e a praia. “Que seja!” Resmungou o andarilho, pondo-se a marchar decididamente rumo ao seu objetivo. Em dado momento, percebeu que continuava a caminhar pelo leito seco do rio morto. Confabulou: “talvez o rio não esteja morto, apenas escondido no oceano esperando a hora certa de voltar!” E seguindo o rastro do rio fujão, o andarilho caminhou apressadamente por horas. O fim de sua jornada estava mais longe do que imaginava. Pelo caminho, passou por construções antigas, ruínas e vestígios de eras passadas, mas era a natureza que o chamava. Longas horas se passaram. Mas num dado momento, o som das ondas quebrando na praia inundou seus ouvidos com uma melodia inédita e contagiante. Ao subir uma última duna de areia que o separava do horizonte, Raul se deparou com a mais bela visão que seus olhos cansados já puderam contemplar! “Finalmente, o infinito!” Vangloriou-se o velho andarilho. Sem perder seu curto e precioso tempo, ele correu duna abaixo, abandonando sapatos, calça e camisa pelo caminho, até molhar os pés na água. Sorriu com a alegria tola de uma criança ao se deixar abraçar por uma onda. Mergulhou na água salgada, provou seu gosto pela primeira vez e cuspiu em seguida, achando graça de sua bobice. Correu pela areia molhada pisando em conchas e espantando caranguejos. Não sabia o que eram caranguejos e os caranguejos não sabiam o que era Raul. Mas se aquelas criaturas não o atacaram, então de certo não atrapalhariam sua diversão. Ele continuou a correr e a pular, saltou as ondas, jogou água para cima com as mãos e deu gargalhadas de si mesmo até perder o fôlego.

 

Sem se dar conta, o sol havia tombado no horizonte. Suas luzes alaranjadas coloriam o mar como uma imensa piscina de ouro. O andarilho não conhecia o ouro, talvez por isso o mar parecesse ainda mais belo. Já cansado, ele se sentou sobre a areia e admirou satisfeito o pôr do sol que se descortinava à sua frente.  Ao seu lado, suas velhas roupas abandonadas displicentemente. Por alguma razão, resolveu se vestir novamente e qual foi sua surpresa ao perceber que Darwin continuava ali. “Que bom que veio, nobre amigo!” Disse o homem ao livro, tomando-o em suas mãos e acomodando-o ao seu lado, num pequeno monte de areia. Por algum tempo, ambos ficaram admirando o horizonte, mas alguma coisa incomodava o andarilho. Levou a mão ao bolso da calça e de lá retirou os papéis embolados que resgatara do prédio no dia anterior. Pediu licença à Darwin e resolveu ler o que diziam: “Arma biológica: vírus assassino foi desenvolvido em laboratório militar”. Mesmo apagadas pela ação do tempo, as letras impressas naquele antigo jornal não puderam apagar a culpa da humanidade. O andarilho encheu os pulmões de desgosto, rasgou os papéis e os deixou planar com o vento. No entanto, havia algo a mais planando no céu que lhe chamou a atenção. Além do horizonte, sobrevoando o mar, aproximava-se rapidamente uma estranha luz. Tão rápida e intensa que o andarilho conjecturou estar sofrendo de alucinações devido à desidratação. Assustado, mas sem forças ou interesse para fugir do que quer que fosse aquilo, Raul observou com olhos arregalados a estranha luz reduzir sua velocidade à medida que se aproximava da praia e, para o seu espanto, revelar-se numa surpreendente máquina voadora que precisamente aterrissou a não mais do que vinte metros do solitário homem e seu livro.

 

Quando a nuvem de areia levantada pelas poderosas turbinas da máquina também aterrissaram, uma misteriosa criatura desembarcou do veículo e se dirigiu calmamente em direção ao moribundo que lhe fitava apreensivo alguns metros dali. Apesar das feições humanas, Raul logo percebeu que se tratava de um robô humanoide. Para a surpresa de ambos, tanto o robô quanto o homem deveriam estar extintos. A máquina se aproximou e, contra qualquer previsão do andarilho, disse “olá”. Raul hesitou, nunca havia visto um robô “vivo” antes e toda comunicação que tivera na vida fora com outros humanos. Mesmo assim, não deixaria de ser educado.

 

_ Olá! Você veio até aqui me matar?

_ Não, senhor.

_ Sorte a sua, perderia a viagem.

_ Eu sou um robô de rastreamento. Nossos satélites localizaram o senhor se deslocando por essa região e fui enviado até aqui para resgatá-lo e salvar sua espécie. Você é o último Homo Sapiens vivo do planeta. Combinando seu genoma em nossos laboratórios, podemos recriar sua espécie e reintroduzi-la na natureza.

_ E por que diabos você salvaria minha espécie? Minha espécie destruiu esse planeta e, por fim, destruiu a si mesma. Só um monte de latas estúpido como você pensaria em repovoar esse lugar com os mesmos macacos arrogantes que o destruíram uma vez.

_ Fomos programados para isso. Nós encontramos espécies em risco de extinção e as ajudamos a se recuperar. Também recuperamos florestas, rios e oceanos.

_ Eu agradeço suas boas intenções, homem de lata, mas o tempo dos homens de carne e ossos se esgotou. Mais cedo do que gostaríamos, é verdade, porém, mais tarde do que merecíamos.

_ Senhor, está dizendo que deseja ser extinto?

_ Por que não desejaria? Os dinossauros dominaram esse planeta por 200 milhões de anos. Não fosse um meteoro tê-los extinto, os mamíferos nunca teriam se desenvolvido e você não estaria tendo essa conversa inútil comigo. Os humanos dominaram esse lugar por apenas 200 mil anos e acabaram sendo seu próprio “meteoro”. Nós somos os seus dinossauros, homem de lata, agora vamos sair e deixar esse planeta para sua própria espécie evoluir e se desenvolver. Espero que as máquinas tratem melhor este planeta do que os antigos inquilinos. – Dizendo isso, Raul foi acometido por uma terrível crise de tosse. A trégua com os micróbios havia chegado ao fim.

_ Meus sensores apontam para uma grave contaminação virótica em seu organismo, seguida de um severo quadro de desidratação e desnutrição. O senhor tem menos de 10 minutos de vida até seu organismo entrar em colapso.

_ Sua “sensibilidade” é notável, homem de lata…cof cof cof

_ Posso aplicar medicamentos que prorrogarão sua vida em até duas horas. O senhor deseja?

_ Por acaso você quer me impressionar, máquina estúpida? Então me faça um favor: diga-me que consegue reproduzir o que está gravado nesse objeto… – Com dificuldade, o andarilho pegou o livro ao seu lado, abriu uma última vez “A Origem das Espécies” e, colado à contracapa, retirou um velho CD arranhado das entranhas do livro, mostrando-o ao robô a sua frente. O robô, por sua vez, escaneou com um feixe de laser o objeto.

_ Trata-se de um arcaico dispositivo humano para armazenamento de dados. Infelizmente está danificado demais para ser reproduzido integralmente. Deseja que eu reproduza os arquivos não corrompidos?

_ Eu lhe seria grato pelo resto da minha vida. – Respondeu o andarilho, sem disfarçar o mórbido sarcasmo. O robô tomou emprestado o CD da trêmula mão do homem e dirigiu sobre ele o mesmo feixe de luz vermelha. Logo em seguida, uma bela melodia começou a exalar através da máquina. O som agradou ao andarilho tanto quanto o oceano minutos atrás. Sem conter o largo sorriso, Raul se sentou novamente sobre a areia e indagou sua companhia humanoide:

_ Ei, máquina, você é muito inteligente, não é mesmo? Será que poderia me descrever “deus”?

_ Sim, senhor. Deus, sendo uma referência a quaisquer divindades, trata-se de um conceito imaginário fruto da capacidade de abstração humana. – Respondeu o robô, friamente.

_ Isso quer dizer que, se não há humanos, não há deus, estou correto?

_ Tecnicamente.

_ Há há há! Acho que isso nos deixa quites, seu desgraçado! – Gargalhou o moribundo com os olhos voltados para o céu.

_ Desculpe, senhor. Não entendi.

_ Relaxa, homem de lata! Essa não era para você.

 

A música continuou tocando mansa e suave como o pôr do sol. O robô nada fez quando os micróbios realizaram um derradeiro e fulminante ataque kamikaze contra a humanidade. O último homem morreu em poucos minutos, como a máquina disse que seria. Ele ainda segurava junto ao corpo seu inseparável amigo Darwin. Por algum tempo, a máquina observou o corpo daquele espécime debruçado sobre a areia. Talvez, procurando por algum sinal vital naquela frágil criatura de carbono e água. Ou, talvez, apenas intrigada com o estranho sorriso estampado na face do defunto.

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