ENTRE OUTRAS COISAS, O HOMEM

ENTRE OUTRAS COISAS, O HOMEM

Não tenho reis, nem senhores, nem gurus, nem padres, nem pastores, nem rabinos, nem xamãs, nem líderes, nem ídolos, nem religião, nem ideologias, nem facções, nem partidos. Não tenho guias, nem coleiras. Onde estou não há sombra de deuses ou demônios. As ameaças e os subornos não valem mais nada. Os santos e os imperadores estão nus. Também não há estátuas para louvar, nem livros empoeirados em sacras embalagens. Não há sagrado nem profano. Não há autoridade instituída. Não há lei escrita ou tácita. Não há placa de “proibido ultrapassar” nem aviso de “não entre”. 

Todas as portas estão abertas ou arrombadas. Todos os caminhos me são permitidos, aos que não são, percorro por discretos atalhos. Não há presunção de inocência, nem foro privilegiado, nem prerrogativa do cargo, nem absolutamente coisa alguma que possa se proteger ou se esconder do escrutínio da minha consciência. Aos olhos da razão e da lógica, são todos suspeitos até que se prove o contrário. O conhecimento é o fio da espada, o argumento a ponta da flecha e a dúvida, o denso metal do meu escudo. 

Acordei a esfinge e provoquei: convença-me ou te devoro! 

Também não sou responsável e não me responsabilizo por nenhuma crença ou ideologia. Crenças são opiniões, opiniões nasceram para evoluir e, necessariamente, morrer. Se suas opiniões não mudam com o tempo, o diagnóstico é de morte cerebral. Doe os órgãos e jogue o cérebro no lixo da cozinha. Ideologias, por sua vez, são lentes pelas quais se enxerga o mundo. Mas lentes embaçam, sujam e se arranham com o tempo, mostrando, muitas vezes, imagens distorcidas da realidade. E a realidade é o objeto de estudo. A verdade, o objetivo, finalidade. 

É preciso buscar a verdade sobre a realidade dos fatos e fenômenos, das relações e das coisas. Pois a verdade é a realidade e a alternativa é a ilusão. Ilusão é escravidão. A realidade, porém, não me deve a alegria de encontrá-la, nem felicidade, nem esperança, nem dinheiro, nem ombro amigo em tempos de aflição. A realidade não me deve nada. É como tempestade que, indiferente, se derrama impassível sobre o corpo que refresca ou que afoga. A realidade é o objeto, não o observador. O observador sou eu. Eu observo, analiso e formulo ideias. Ideias que já nascem condenadas a pena capital ou a glória da evolução. Ideias que na hora da morte, de forma honrosa, abrem mão de qualquer misericórdia, reverência, respeito póstumo. Ideias transitórias não deixam saudade em mentes livres. Não há liberdade de pensamento onde as ideias morrem de velhice.

Liberdade é do que trata este texto. Liberdade de consciência que só aflora quando se rompe com qualquer dependência, autoridade, apego, vaidade ou prerrogativa de ideias. Liberdade para questionar e duvidar. Liberdade para acessar as masmorras mais escuras e os picos mais altos do conhecimento. Liberdade para aprender e desaprender aquilo que outrora aprendeu e julgou ser verdade. Pois a verdade é o objetivo e a alternativa, ilusão. Ilusão é escravidão. Escravidão é ignorância. Acordei a Esfinge e provoquei: a resposta é “o homem”.

 
 

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>